Algo de podre no reino da Dinamarca…

Considerada a última experiência de comunidade alternativa ainda existente na Europa, a cidade livre de Christiania está ameaçada por uma decisão recente da corte suprema dinamarquesa

Em tempos de primavera árabe, acidente nuclear e crise econômica nas zonas geográficas mais importantes do planeta, poucos são os expectadores atentos ao futuro de Christiania. Entretanto, a última experiência de comunidade alternativa ainda existente na Europa pode estar próxima de seu fim. Uma decisão recente da corte suprema dinamarquesa põe fim a uma disputa judicial de mais de seis anos entre o Estado e os residentes. A corte considerou que uma decisão governamental de 2004 não ia de encontro à Convenção Europeia de Direitos Humanos e que o Estado poderia dispor do terreno ocupado em 1971.

Localizada na zona urbana de Copenhague, Christiania foi fundada por desempregados e anarquistas como forma de protesto contra a crise de moradia por que passava a Dinamarca nos anos 60 e 70. A área ocupada pertencia ao Ministério da Defesa, mas não era utilizada há anos e consistia em um conjunto de barracões militares abandonados. Seus primeiros residentes ocuparam o terreno, pintaram os antigos balcões com cores alegres, deram nome às ruas, e logo a cidade ganhou uma bandeira, um hino e regras de convivência específicas. Um conselho foi eleito para representar a coletividade e tomar decisões relacionadas à vida comum, como a distribuição das moradias e a inserção de novos habitantes. A cidade atraiu rapidamente olhares de todo o mundo, dividindo opiniões na sociedade dinamarquesa.

Em 1989, foi beneficiada por um estatuto que dava a seus primeiros residentes o direito de dispor livremente do terreno ocupado. Não só Christiania representava uma experiência de igualdade e democracia participativa, como também contribuía para a reinserção de narcômanos e pessoas com dificuldades sociais de integração. Artistas, acadêmicos e ativistas dividiam pacificamente o terreno e o comércio de drogas leves era permitido ao redor da famosa Pusher Street. Ao proibir o uso de veículos motorizados, a coletividade pretendia ser um modelo de oposição à sociedade capitalista e ao consumismo. Polo de atração para turistas de todo o mundo, Christiania era uma exceção ao Estado, mas de alguma forma contribuía para que o governo fosse considerado tolerante. Assim, são complexas as razões que levam as autoridades a adotar uma política de “normalização” a partir da chegada ao poder do governo conservador de Anders Fogh Rasmussen em 2001.

Para os membros de Christiania, a decisão de revogar o estatuto a fim de garantir ao governo, e não aos moradores, o direito de dispor do terreno é motivada por razões econômicas. A comunidade está localizada em uma das zonas mais centrais da capital e, uma vez privatizada, o metro quadrado da área seria extremamente valioso. Destruir a cidade significaria, portanto, construir um complexo de prédios modernos para a alta sociedade. O governo evoca, no entanto, muitas outras razões.

Inicialmente, o comércio de drogas em Pusher Street teria tornado-se extremamente lucrativo e dado origem a um fluxo de tráfico ilegal na Europa. O governo estima que, antes de ser proibido e coagido pelas autoridades há alguns anos, chegava-se a vender uma tonelada de drogas diariamente em Pusher Street por traficantes profissionais, que substituíam os residentes. Segundo o governo, também o índice de criminalidade teria aumentado nos últimos anos. Para os moradores, isso seria o resultado da diminuição de investimentos da parte do Estado a fim de que a cidade se deteriore, e que ele possa em seguida trazer a ordem e a prosperidade com o apoio da opinião pública.

Disputas à parte, a questão do apoio da sociedade dinamarquesa é fundamental. Há uma insatisfação crescente de parte da população em relação a Christiania. O que surgiu como uma comunidade autossuficiente parece não funcionar perfeitamente como tal. Atualmente, boa parte dos moradores tem empregos normais e utiliza os serviços públicos de transporte, saúde e educação do país. Eles não pagam, entretanto, os altos impostos a que está submetido o resto da população, nem as altas taxas de aluguel. Instalada em um território da União e, portanto, pertencente ao povo dinamarquês; Christiania é restrita a poucos privilegiados que recebem uma autorização de estadia do conselho de eleitos. As reivindicações da coletividade já não são vistas como legítimas e seus moradores são constantemente julgados como aproveitadores, que se beneficiam do estado de bem-estar dinamarquês, sem arcar com suas consequências.

De toda maneira, uma retirada à força dos habitantes seria politicamente inviável, e as autoridades deverão sentar-se para discutir o futuro da experiência. Os residentes estão dispostos a lutar por ela e já estão juntando dinheiro através de empréstimos para comprar do governo o maior número possível de casas. Mas é difícil saber que futuro a coletividade terá agora que seus habitantes já não podem tomar suas decisões de forma autônoma. Uma coisa é certa, com Christiania morre a última utopia anticapitalista europeia. Vejamos o que resta.

Alguns links para entender melhor Christiania:

Fotos de Christiania (youtube.com)

Documentário sobre Christiania (youtube.com)

Filipe Silva

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