Anjos do Sol

Em uma viagem de norte ao sul do Brasil, com lindas imagens das mais diversas paisagens do país – passando pelas belas praias do litoral nordestino, pela caatinga do interior dos estados do Nordeste, pela vasta floresta Amazônica e chegando até a “Cidade Maravilhosa” – o filme Anjos do Sol, de 2006, retrata uma realidade particular, porém nada incomum.

Dirigido por Rudi Lagemann, o filme aborda a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes, seguindo a trajetória de Maria, uma menina de 12 anos que após ser vendida por sua família, que vive em extrema pobreza, achando que iria ser levada para alguma capital para trabalhar como doméstica na casa de alguma família rica, é forçada a prostituir-se. O filme, que teve sua primeira mostra pública durante o Miami International Film Festival, recebeu o prêmio popular de Melhor Longa de Ficção Ibero-americano, em 2006, além de receber várias aclamações pelos papéis interpretados pelos atores do filme.

De menina a puta

Após ser levada de casa, Maria, interpretada por Fernanda Carvalho, que durante as filmagens tinha apenas 11 anos de idade, viaja até um prostíbulo localizado entre vários grandes latifúndios e fazendas, organizações de terra que sobrevivem até hoje no Brasil desde sua época colonial. Lá, é leiloada para um grande proprietário de terras, que decide presenteá-la à seu filho de 15 anos por seu aniversário. Por sua aquisição recebe também uma outra menina “pela metade do preço”; essa, por não ser virgem. Logo, são levadas à um prostíbulo, a Casa Vermelha, em Socorro, uma vila garimpeira no meio da floresta Amazônica.

O filme retrata a violência física e psicológica que as meninas sofrem quando em contato com os homens, sob os comandos e a lei dos cafetões ou cafetonas, e dentro dos prostíbulos. Porém não há cenas de sexo explicito, o que não diminui a clareza da dura realidade sob a qual estão forçadas a viver. Um exemplo, é quando Maria e Inês, a menina “não-virgem” vendida com Maria ao grande latifundiário e depois transferidas para Socorro, têm sua primeira noite de trabalho. A partir das 20:00, homens, jovens e velhos, bêbados e drogados, limpos e sujos, fazem fila para pagar três gramas de ouro por uma noite com a “carne nova”, a grande novidade oferecida pela Casa Vermelha aquela noite. E, um atrás do outro, vão entrando nos quartos das meninas, até o amanhecer.

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Perda de inocência

Acompanhando a dura trajetória de Maria, podemos perceber como, de pouco a pouco, a menina vai perdendo sua inocência. Abandona seus sonhos de voltar para casa, se revolta contra as figuras de poder de onde vive, o que, devido à sua carinha de criança, é visto como atos de mal criação, que podem ser resolvidos com uma dose maior de castigos, e finalmente, aceita, o que muitas antes dela nos prostíbulos em que viveu já haviam entendido, que através do corpo que tem está a única possível saída e caminho para uma melhoria de vida.

Exploração, abuso… e agora?

A exploração sexual infantil faz parte de um problema que nos toca a todos. Não somente os donos de prostíbulos, pensões, puteros ou boates com “diversões extras”, ou seus frequentadores. Está intrinsicamente ligada ao abuso sexual infantil, que pode ocorrer desde em lugares conhecidos por serem lares de atos sexuais, porém mesmo em casas de famílias autoproclamadas respeitáveis. Em 2014, no Brasil, o número de denúncias de abusos sexuais à crianças subiu de 54 à 119 registros, segundo o Centro de Referência Especializado de Assistência Social. Mas sejamos claros, esse número não corresponde nem a uma mísera porcentagem do valor real, ainda que um aumento em 120% nas denúncias seja claramente um bom sinal, em termos individuais.

Quase 10 anos após o lançamento de Anjos do Sol, as histórias de crianças, tanto meninas quanto meninos, tão jovens que chegam a ter 9 anos ao prostituir-se, continuam aparecendo com frequência na mídia brasileira – o exemplo mais claro que vem à mente foi o caso de crianças que se colocavam, forçadas, à disposição dos operários durante a construção dos Estádios da Copa do Mundo de 2014.

A questão aqui é, portanto, se estamos olhando um problema social, sabendo onde, quando e como ocorre, e continuando apáticos à dura realidade dessas crianças, que jovens, já de crianças não têm mais muita coisa, ou se estamos realmente fazendo algo concreto para, pelo menos, diminuir a incidência dessa realidade.

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