Dói-me Portugal

Nas edições anteriores, vimos ser amplamente abordado o tema da chegada a Poitiers dos novos 1A e da sua respectiva adaptação. Queria desta vez analisar outra parte importante deste período de mudança: a partida.

Não só a partida no sentido mais estrito da palavra, no aeroporto, com a nossa vida inteira dentro duma mala, em muitos casos com lágrimas a escorrer não só pelos nossos rostos, mas também pelos dos nossos amigos e familiares que se vieram despedir de nós naquilo que praticamente parecia uma despedida final. Não, não é essa a partida de que quero falar. É antes a mágoa, para muitos até a revolta de ter de abandonar a nossa pátria.

Seguramente muito poucos terão escolhido vir estudar para França por mero capricho. Alguns terão vindo após ter lido o estudo segundo o qual Sciences Po é a 18a instituição de ensino superior que mais milionários cria. Outros tantos terão vindo pela intensa vida social paralela à vida estudantil. No entanto, desde que cheguei, cada vez encontro mais casos como o meu: pessoas que abandonaram o seu país com pesar, frustradas pelo rumo que ele leva, mas procurando formar-se, para contribuir para a inversão dessa rota.

Por vezes essa é a parte mais difícil da partida. Trocar a máquina de lavar que muitos tínhamos em casa por uma das várias lavandarias locais é penoso. Deixar para trás, para muitos, um clima tropical para abraçar este “nosso” micro clima de Poitiers chega quase a ser deprimente. Perder os nossos amigos e família, em busca de constituir novos (de preferência não família no sentido literal, pelo menos não já em Poitiers) é fastidioso. Mas quase nenhuma sensação é tão dura quanto a angústia de deixar o país que nos viu nascer e/ou crescer por sentirmos que este não nos quer.

Como seguramente já terão percebido, sou Português. Portugal, um dos países mais afectados pela crise de 2008, mas que aos olhos da Europa é um caso de sucesso. Orgulham-se de nós já que tivemos a pertinência de ir mais longe que o imperador Troika. Quando já não era preciso despedir mais, despedimos. Quando já não era preciso cortar mais, cortámos. Venho dum país onde mais de 500 000 pessoas emigraram entre 2011 e 2014 (numa população que não chega a 11 milhões). Querem saber qual foi a reacção das autoridades a este surto migratório? Tivemos um ministro a aconselhar-nos a partir. Temos, pois, um país que cria empregos para os seus cidadãos. Acontece, apenas, que esses empregos são no estrangeiro, frequentemente precários e geralmente sub-qualificados.

Venho dum país cujo Primeiro-Ministro se dá ao luxo de chamar aos habitantes “piegas”. Seguramente muitos não conhecem a palavra. Vale a pena descobri-la. Significa medricas, cobardolas, medroso, segundo um dicionário online. Para aqueles que apenas agora começaram a aprender português, trata-se duma lista de insultos capaz de fazer inveja a um presidiário experiente. Não foi, no entanto, na prisão que a palavra foi utilizada. Foi num discurso do chefe de Estado do meu país, para falar de mim e de todos os meus concidadãos.

Venho dum país que não é para velhos, tal como o filme dos irmãos Coen. Nem para jovens. Nem para ninguém, neste momento, aliás. Recentemente, o histórico fundador do PSD, partido no poder, e respeitado cronista, José Pacheco Pereira escreveu um artigo a partir do lindíssimo Españolito, poema do espanhol António Machado, que se veio a tornar viral. Inspirado pelo “me duele España” de Unamono, o artigo chama-se “Dói-me Portugal”. Também a mim e a várias centenas de milhares de emigrados forçados, a enorme maioria com condições e perspectivas bem piores que as minhas, nos dói. E que dor esta.

A 4 de outubro teremos eleições, que, neste momento, permanecem imprevisíveis. Parece, no entanto, garantido que o resultado contribuirá para o prolongamento da instabilidade, sem nenhum partido com perspectivas claras de maioria absoluta e com poucas hipóteses de coligações. Com eleições Presidenciais em janeiro, o Presidente encontrar-se-à impedido pela Constituição de dissolver uma Assembleia que seja constituída e o futuro Presidente da República também não o poderá fazer durante 6 meses. A dor ameaça não passar tão cedo. Pelo contrário, parece apenas se ir agudizar nestes próximos tempos.

Mas sei que não é só Portugal que dói. Desde que cheguei a Poitiers, já conheci a quem doesse a Guatemala, a Grécia, o Brasil e tantos outros, todos por razões diferentes. E é ao descobrir isto que me reconforto, no meio de mais várias dezenas de inconformados, determinados a voltar para encontrar a cura para esta dor que marca tantos de nós.

Jose Paz Ferreira

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